Daniel Santos foi um dos 302 pacientes curados de covid-19 no Hospital Adventista de Manaus, instituição com mais de 40 anos de atividades.

Para muitas pessoas, viver nas grandes cidades do Brasil representa uma corrida constante contra o tempo. Muitos já começam a trajetória diária antes de o sol nascer e só terminam quando o dia já está escuro novamente. Por causa da rotina e do trabalho acelerados, elas acabam se descuidando da própria saúde, dormindo e se alimentando mal. Com o autônomo Daniel Santos, de 34 anos, não era diferente.

“Minha vida começava antes das 5h30 da manhã e durante o dia, quando eu estava no trânsito, estava sempre correndo. A impressão que eu tinha era que eu estava sempre atrasado. A alimentação, então, nem se fala”, pontua Santos. “Meus hábitos não eram bons, mas eu sempre tentava tomar o café da manhã e almoçar com a minha família. Por causa da rotina, desenvolvi uma hérnia de disco na coluna e já estava fazendo os exames pré-operatórios para tentar sanar o problema.”

Ele planejava tirar um tempo para cuidar da própria saúde, até que em um drástico dia tudo mudou. Em março, pouco antes de comemorar o aniversário de 13 anos de união com a esposa, começou a sentir dor nos olhos, febre e falta de ar. Os sintomas não deixavam dúvidas: o autônomo estava com covid-19 e precisou ser internado às pressas no Hospital Adventista de Manaus, localizado no bairro Distrito Industrial, na Zona Sul da capital amazonense.

“Eu já não conseguia mais fazer nada. Tudo o que eu fazia me cansava muito rápido. Fiquei por cinco dias com uma febre que não passava, e quando cheguei com falta de ar ao hospital, preferi ficar internado. O problema estava tão sério que esse foi o primeiro momento em que eu temi pela minha vida”, relata ele, que ficou internado no hospital durante 10 dias.

Doença

Até o dia 12 de maio de 2020, a Secretaria de Saúde do Amazonas contabilizou 14.168 casos em todo o Estado, com 1.098 óbitos e 6.782 pacientes recuperados. A doença é causada por um novo tipo de coronavírus que surgiu na China em dezembro de 2019. Rapidamente, o vírus chegou a diversos países, incluindo a Itália e o Brasil, e em março de 2020 foi declarado pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, já são 202.918 casos confirmados, sendo 79.479 recuperados e mais de 16 mil mortos.

Entre os pacientes mais propensos a serem infectados com o novo coronavírus estão idosos, pessoas com doenças crônicas como asma, hipertensão, diabetes, obesidade e com doenças cardíacas. Santos foi um dos primeiros pacientes de covid-19 em Manaus, e por sofrer com a obesidade e uma arritmia cardíaca, se enquadrava em dois dos grupos. Mas o pior, segundo o autônomo, foi a parte psicológica, que ficou bastante abalada durante a internação.

“Acho que o que mais mexe com o paciente de covid-19 não é a doença em si, mas toda a carga psicológica que ela traz. Por ser uma doença ainda desconhecida, a gente precisa ficar isolado, sem contato até mesmo com a nossa família”, avalia. “E o fato de eu não poder ver a minha esposa e a minha filha me deixou bastante abalado. Houveram momentos em que eu perdi a vontade de viver, e falei “Deus, eu não aguento mais.” Enquanto estava ali, internado, eu orei muito, pedindo a Deus que Ele fizesse a vontade dEle.”

Se os primeiros dias de internação foram difíceis para ele, para sua esposa, Karoline Santos, de 36 anos, a situação também não foi fácil. Enquanto o esposo estava internado, ela ligava para ele diariamente, pedindo para que ele aguentasse firme e lutasse contra a doença, uma vez que a curva de piora seria de cinco dias, segundo a médica que o atendeu. Cada vez mais as coisas pioravam, e a falta de ar de Daniel era constante, agravada pelas suas outras comorbidades.

“Quando nós conversávamos, eu pedia que ele aguentasse até o dia 5 de abril, para que ele lutasse contra a doença. Em meio a isso, eu não aguentava ler as notícias que surgiam diariamente, de mortes por covid-19, incluindo pessoas como o Daniel. E no final de cada dia, eu ligava pra ele e pedia para que ele aguentasse até o domingo, o aniversário do nosso casamento, para comemorarmos juntos, ainda que à distância”, relembra Karoline, emocionada.

Esperança

A esposa e companheira de trabalho conta que em um dos primeiros dias de internação, separou uma caixinha de som e conectou ao seu celular, e fez uma playlist com as músicas preferidas de Santos, e um cartaz com 10 motivos pelos quais ele precisava lutar. Como ela não podia entrar no hospital, ficou do lado de fora do prédio, em frente ao apartamento do esposo. Ela ligou a caixinha de som e levantou o cartaz para que o esposo pudesse vê-la, numa espécie de serenata.

“Enquanto eu fazia isso, eu orava a Deus e falava que meu esposo não ia morrer. E nesse dia, quando eu fui no hospital, pedi que ele aguentasse só mais um pouco, só até domingo, porque eu sabia que ele ia melhorar”, detalha. “Um dos motivos que eu listei, inclusive, era que a gente precisava ver nosso time ser campeão mundial. Desliguei o telefone, orei e pedi mais uma vez a Deus que meu esposo não morresse, e enquanto isso, eu falava pra mim mesma: ‘meu esposo não vai morrer!’”

Carta escrita pela esposa e a filha de Daniel com alguns motivos pelos quais ele não deveria desistir de lutar (Foto: Arquivo pessoal)

Fé aliada à ciência  

Depois do quinto dia de internação, Daniel começou a melhorar. Além da sua confiança no poder divino – um dos oito remédios naturais –, o que fez diferença no seu tratamento foi o cuidado e a atenção recebida por parte dos profissionais, tanto técnicos como enfermeiros e médicos do Hospital Adventista de Manaus.

“Existia toda a rotina de aferir a pressão, administrar o medicamento, mas havia algo mais. Além de fazer isso, os técnicos e enfermeiros vinham, conversavam comigo, oravam comigo. Outras pessoas vinham, sentavam, conversavam, e até mesmo cantavam no corredor”, ressalta o paciente. “Posso dizer que todos os enfermeiros dos dois turnos foram bastante atenciosos e humanos. Pra mim, isso fez toda a diferença, além, claro, da ação de Deus e do apoio da minha família.”

O regime alimentar seguido na unidade de saúde, com uma dieta vegetariana e sem alimentos refinados, também fez diferença no tratamento. Segundo a nutricionista Kelly Barboza, que acompanhou o paciente durante o período de internação, no início da pandemia, o aconselhamento nutricional foi feito pelo telefone, meio utilizado para consultar a aceitação e a preferência de Santos pela alimentação.

“Geralmente, os pacientes obesos são desnutridos. Por isso, escolhemos alimentos como frutas, saladas, açúcares simples e bastante água, e menos alimentos refinados. Na maioria das vezes, o paciente entende a importância da alimentação para a recuperação, e foi o que aconteceu com o Daniel. Como ele não tinha o hábito de comer comida no jantar, adaptamos a refeição para um lanche, que teve boa aceitação até o momento em que ele teve alta”, completa Kelly.

A melhora de Daniel também foi sentida pela esposa, mesmo com ela distante do hospital. “Depois do quinto dia, eu e a médica percebemos que era um novo Daniel. Todos os dias ele me ligava pra falar de coisas mínimas que tinham acontecido, como alguém que sentara com ele pra conversar ou um enfermeiro que estendia a mão pra tocar na mão dele. E ele começou a melhorar, e eu senti que Deus estava recompensando a minha fé e a fé dele”, conta Karoline.

Renascimento

No dia 6 de abril, antes da Páscoa, ele recebeu alta hospitalar. “Foi uma alegria imensa pra mim. Ele chegou e nós pudemos comemorar a Páscoa com o verdadeiro sentido dela, que é renascimento e ressurreição. Eu tenho certeza absoluta que o Daniel renasceu”, garante a esposa.

Ele foi um dos primeiros entre os 302 pacientes curados da doença no Hospital Adventista de Manaus até o dia 15 de maio. Agora, ele pretende ficar em casa com a família e inspirar outras pessoas a resistirem à doença, que já vitimou 302.493 pessoas até o dia 15 de maio, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. A próxima volta de Daniel ao hospital será para dar sequência aos exames pré-operatórios para a cirurgia de hérnia de disco e para tratar a arritmia cardíaca.

“Quando recebi alta, conversei com a minha médica e fiz questão de salientar que estava à disposição para conversar com outros pacientes internados por covid-19. Tenho certeza que eu só consegui vencer porque confiei em Deus, e graças ao trabalho desempenhado pelos profissionais do Hospital Adventista. Essa doença vai ser vencida, e eu tenho certeza de que, em breve, tudo vai ficar bem”, completa Santos.

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